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Zurraria - Dizem-me que aqui se escrevem coisas...

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07
Ago06

Crónica de Praia

Pedro Guerreiro
É o Algarve. Silly Season. Pés descalços, pela praia e/ou pela falta de sapatos habitual. Jet7 e outros Jets convivendo amigavelmente, salvo pisadelas na cabeça ou bolas nas costas de alguém a quem já fez mossa o sol do meio-dia às quatro, a hora perigosa, avisa-se por aí. As crianças sabem-no. Chutam a bola, carregadas de creme mal espalhado nas faces e nas costas, despreocupadas se as costas avermelhadas da senhora poderão sofrer ainda maior estrago com algum alívio à Paulo Madeira, lá vão os tempos, caro amigo. Bela trunfa. Diz que agora já tens cabelo à homenzinho, já era tempo. A tua mãe deve ter ficado contente.
Ao lado, uma adolescente com algum problema de obesidade confidencia às cerca de mil pessoas num raio de cinquenta metros que só pode ter sido a Leonor a fazer as sandes. Que não há de presunto, diz ela, indignada. A maldosa. Sempre a mesma, a Leonor. As cerca de mil pessoas ouviram, e acenam a cabeça de cima para baixo. Que sim, que só pode ser a Leonor, maldosa da Leonor, ao que a adolescente continua o diálogo sobre os sumos numa voz grave, grave demais para quem tem os teus catorze anos, rapariga. Controla-te. Não há Aiceti de Manga? Se eu gosto é de Manga. Cem, duzentas, trezentas pessoas correm ao bar de praia a buscar Aicetis de Manga, não se quer uma adolescente assim chateada. Com uma voz daquelas. Assustadora. Não é cá voz de monstro de desenhos animados, daqueles que a gente até é capaz de olhar e se rir. Tu, ralé dos monstros, não és nada. Esta adolescente tem voz de monstro a sério, daqueles pelos quais ninguém paga bilhete para estar no cinema. Paga para não estar. Pára monstro. Sai. Não. Toma Aiceti.
A menina foi-se embora. Aí sim. Fica. Simpática.
Agora que mais descansado, oiço uma voz mais agradável, menos perceptível, vinda dum senhor de bigode, tichârte do Feira Nova, Preços Sempre a descer. Este é menino para ter vindo à pátria, passados 16 anos encafuado num gueto de portugueses “à Parri”: “Se vous voulez une bola de berlim?”, ao que a criança acena agitadamente, começando a palrar num francês que os meus mal sucedidos engates nas aulas da língua referida não deixaram perceber. Se tivesses escrito ainda vá lá, agora assim? Patrick! Je ne comprend pas, Patrick, presumindo que o teu nome é esse. Hás-de responder, se entoado com todos os erres, Pátrrique, mesmo que sejas Christian ou Davide. Deixa-me ouvir conversas alheias, Pátrrique. Ficamos assim, nomes de guerra. Tu Pátrrique, eu, bem, não interessa.

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