Pelo génio de Bruno Nunes / Qua, 02 Abr, 2008 às 22:33


Dylan só há um, o Bob e mais nenhum. Raciocínio óbvio à primeira vista, especialmente se tomarmos em linha de conta a imutabilidade da maioria das pessoas ao longo da vida. Meliantes que vivem a vida sempre na mesma zona cinzenta, monótona e monocromática, composta apenas por uma camada representativa da personalidade.
O problema é que Robert Zimmerman nunca foi uma pessoa normal. As setes personagens representadas em I'm Not There são as faces que Dylan apresentou ao mundo ao longo da sua vida ao resto do mundo, qual máscara da comédia e tragédia grega.
Todd Haynes arriscou quando partiu para a produção deste filme, não se rendendo à estrutura pré-fabricada dos biopics que Hollywood tem produzido nos últimos anos. Obteve a benção de Dylan himself para que o projecto fosse para a frente e, no meu entender, safou-se bastante bem.
Com uma espécie de subtítulo revelador, "inspired by the music and many lives of Bob Dylan", I'm Not There (Não Estou Aí) revela-se  tal e qual epopeia de um camaleão poeta.
De todos os Dylans (Ben Whishaw, Christian Bale, Cate Blanchett, Richard Gere, Marcus Carl Franklin e Heath Ledger), não há como fugir ao Jude Quinn de Blanchett, mais Dylan que o próprio Dylan, se é que todas as projecções de Dylan não são mais do ícone do que do homem. Não esqueço também o Arthur Rimbaud de Ben Whishaw, o anarquista do grupo, poeta e revolucionário, lançando petardos verbais como "I accept chaos. I don't know whether it accepts me."
É óbvio que para compreender I'm Not There (Não Estou Aí) é necessário possuir algum domínio, mesmo que mínimo, do universo de Bob Dylan, caso contrário pode instalar-se alguma confusão e consequente dificuldade na assimilação do conceito e transposição entre os vários Dylans, ficando do lado de fora do caos aparente.
Em suma, gostei bastante de I'm Not There, se é que ainda não se tinha notado. Um filme importante para a compreensão do mito e do homem Bob Dylan, complementando com perfeição o documentário No Direction Home de Scorsese e o Don't Look Back de D.A. Pennebaker. Para quem gosta de Dylan, a não perder, definitivamente. Absolutamente obrigatório, diria mesmo.


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