Zurrar!Pelo génio de Pedro Guerreiro / Qui, 08 Nov, 2007 às 03:36

Gonçalo M. Tavares, um dos meus escritores de eleição, prepara-se para lançar, ou melhor, para ver lançado mais um livro seu: Aprender a Rezar na Era da Técnica.
Completa a tetralogia dos Livros Pretos, que se contava já com Um Homem: Klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser e Jerusalém. Na linha dos anteriores, deve ser um livro duro, muito cru, psicologicamente dotados, chamo-lhes eu. Segundo Eduardo Pitta, Aprender a Rezar na Era da Técnica "conta a história de um cirurgião, Lenz Buchmann, que se vê tentado pela vida política."
Deixo-vos o excerto, e confesso-vos, quero tê-lo nas mãos o mais depressa possível.


"O homem público — Tansferência de capacidades da medicina para a política


A arte do homem público exercia-se em todos os lados, não havia abrigos ou portos de segurança. Até a própria família — neste caso a sua mulher — era puxada para essa nova linguagem. Maria Buchmann viu-se mesmo obrigada a entender e a integrar-se nesta segunda metodologia aplicada à existência. E a ela agradava, isso era bem nítido — o que por vezes chegava a irritar Lenz —, conhecer novas pessoas, outros homens, outros casais.
Lenz Buchmann, esse, decifrara rapidamente o novo código e, vendo-se um cientista que põe os seus próprios hábitos e acções em causa na mesa de experimentação, percebera já que tinha de começar por outro ponto, pois agora, nas suas decisões, visava salvar por completo não um organismo ou uma existência mas sim, embora só parcialmente, as esperanças e o desejo de cada cidadão.
A capacidade dos aparelhos do seu gabinete médico para detectar a decadência das células transferira-se, com facilidade, dessa escala mínima para a escala normal da rua, e das máquinas para o seu olho. A desordem moral e física dos habitantes comuns assustava-o da mesma maneira profissional com que a falência física de uma célula, antes, o assustava nas consultas no hospital. Era, digamos, um susto que não envolvia o assustado.
O médico Lenz sabia bem da importância de se mostrar surpreendido no momento único em que se diz ao paciente: você tem uma doença, mesmo que, para ele, enquanto médico, aquela não fosse uma frase minimamente determinante para a existência mas uma mera repetição, uma frase habitual; frase que em nada alterava a sua, digamos, economia sentimental.
Esta falsidade era um dos raros gestos em que o médico Lenz se fingia mais fraco para que o outro se sentisse acompanhado. A hierarquia prática estabelecida entre qualquer homem saudável e qualquer homem doente era, no instante seguinte, restabelecida e portanto o médico, qualquer médico, nada sentia perder senão uns minutos de força, minutos esses insignificantes. Esse momento, em que o médico diz ao homem que já não é um homem mas alguém com uma doença grave, era o instante fraterno — o tempo assumia-se coisa material à qual se podia dar uma fisionomia humana —, instante fraterno em que o médico, ao mostrar-se assustado ao mesmo ritmo que o doente, finge estar no mesmo barco. Mas de facto não está.
Era essa capacidade invulgar que Lenz Buchmann transportara das suas consultas decisivas para os vários contactos políticos com um qualquer cidadão. Um problema urbanístico — um edifício projectado com um piso a mais — ou a discussão de uma herança, onde um metro quadrado é combatido legalmente por duas partes, qualquer problema mesquinho deste tipo era elevado, pelo político Lenz Buchmann, ao patamar da separação entre a doença e a não doença. Todos saíam de uma conversa com Buchmann com a convicção de que este estava no mesmo barco, preparado para remar em conjunto, quando, no fundo, Buchmann só estava no mesmo barco de alguém se este remasse por ele. Lenz há muito destruíra o abrigo de ingenuidade que mesmo os demasiado lúcidos ainda guardam, abrigo que ele desde cedo aprendera ter um estranho nome, dado pela Igreja: o Espírito Santo. Nunca embarcava: fingia embarcar e rapidamente saía pelo outro lado do barco, ficando assim sempre no porto, numa posição privilegiada de observador com os pés sobre a ordem e não sobre a água imprevisível
."

                                                        
Aprender a Rezar na Era da Técnica, Gonçalo M. Tavares



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